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CLAUDIO ANDRADE

Os bastidores e sua sentença.

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17/05/2018, às 13:10 - por Claudio Andrade
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Contrariado, mas consciente, escrevo estas linhas. Entre inverdades, provocações,  leviandades, passionalidades, exposições desnecessárias, barbáries,  idéias  rasas e preconceituosas [ destiladas nas redes sociais ] , retirei um fundamento  que parece ser razoável, a saber: “estamos conectados, mas não escutamos o outro, só fazemos barulho”.  Esta máxima é balizada pelo pensador alemão  J. Habermas que, claro como a neve, tem assumido posições necessárias e esclarecedoras.  Avesso às bestialidades e pensamentos artificiais das redes sociais, lamentou que temos muitos autores (quaisquer autores) e poucos leitores capazes de discernir em sua essência o que é e o que não é. O filósofo que tenho estudado sente a falta de intelectuais ousados, capazes de antecipar-se ao que está acontecendo. Talvez eles [ os intelectuais propositivos] estejam em extinção  por falta de leitores que possam acolher e compreender teses esclarecedoras sobre para onde vamos e para onde não vamos, com seus válidos argumentos. Vivemos no inferno do igual, em mundo de clichês.

Se tivéssemos mais leitores autênticos e críticos, não viveríamos encerrados em velhos esquemas e olharíamos o mundo de hoje com os olhos de amanhã, sem miopia ou ruídos. Entender o que está acontecendo e argumentar com racionalidade é o maior desafio que formadores de opinião isentos enfrentam no momento em que escrevo. O fato é que neste exato momento, não há nenhum pré-candidato à Presidência da República que projete perspectiva de um Brasil que queremos, fazendo analogia à indústria cultural da Rede Globo de Televisão, que tem coletado gratuitamente o imaginário inconsciente de milhões de brasileiros.

Com a esquerda fragmentada e/ou refém da decisão de Luis Inácio Lula da Silva, o declínio da novidade Joaquim Barbosa e a inércia de Marina Silva e Ciro Gomes que mais patinam, corre-se o risco de um enfrentamento da direita e da extrema direita sem nenhuma perspectiva política. A verdade cristalina é que não há candidato ou candidata convincente, possivelmente porque também não temos eleitores lúcidos.

Anestesiada, a sociedade que já foi mais consciente, hoje não compreende os novos dispositivos de dominação que passam despercebidos. Há um truque político em jogo que poucos se deram conta. Trata-se do assédio judicial onde em nome da justiça escolhe-se quem sai primeiro do jogo e quem fica, mesmo sob judice. Ou ainda, a justiça age (e isto é visível), mas no momento não se consegue atingir todos que gostariam de atingir. Resultado, escolhe-se os escolhidos pelo sistema. Esta situação é naturalizada por pais e mães de família, filhos e filhas que vivem em um ambiente onde não há outra opção senão esta. Esta é a maior perversidade do aparelhamento ideológico invisível.

Em uma eleição sem sabor e com a perspectiva da maior abstenção da história, aqueles que foram selecionados tendem a disputar um segundo turno sem sal e sem doce em nome da continuidade do país, sem surpresas. Neste cenário, mesmo com náusea, reconheço que Bolsonaro [que parece ter atingido seu teto] só terá tempo de dizer “Meu nome é Jair” e, Alckmin, mesmo parado e com a garantia absoluta de que assumindo ou não assumindo será o ‘Pai’, tem tudo para ter as bênçãos dos impotentes.  O sistema quer isto.  O sistema tem potencialidade para ter êxito, apesar de que o homem comum ainda dá crédito à máxima “O Brasil que eu quero”.  Há aí uma profunda discrepância entre o que o sistema impõe e o desejo da sociedade. Isto não tem mais o nome de eleição em sentido democrático, mas sim de ‘corrosão’.

  • Claudio Andrade é autor do livro Estratégias Políticas de Instâncias Locais, graduado em Filosofia e Doutor em História e Sociedade pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Atualmente é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro) e coordenador do Curso de Especialização Ensino de Sociologia. É Colunista da Rede Sul Notícias e crbf/coluna.

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